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BEIJA-FLOR

Desfila no segunda-feira, 20/02, entre 02h e 02h40

Foi num terreno situado na esquina da Av. Getúlio Vargas e Rua Mirandela, em Nilópolis, município da Baixada Fluminense, que um grupo de rapazes se reuniu para o “enterro dos ossos” do Natal de 1948. A batucada só foi permitida depois que os sambistas prometeram à dona do terreno, Eulália de Oliveira, que fundariam um bloco com o mesmo nome do clube de rancho que havia em sua cidade, Marquês de Valença, MG.

SAMBA-ENREDO

“Brava Gente! O grito dos excluídos no bicentenário da Independência”

Autores: Léo do Piso, Beto Nega, Manolo, Diego Oliveira, Julio Assis e Diogo Rosa
Intérprete: Neguinho da Beija-Flor

A REVOLUÇÃO COMEÇA
ONDE O POVO FEZ HISTÓRIA
E A ESCOLA NÃO CONTOU
MARCO DOS HERÓIS E HEROÍNAS
DAS BATALHAS GENUÍNAS
DO DESQUITE DO INVASOR
NAQUELE DOIS DE JULHO, O SOL DO TRIUNFAR
E OS FILHOS DESSE CHÃO A GUERREAR
O SANGUE DO ORGULHO RETINTO E SERVIL
AVERMELHAVA AS TERRAS DO BRASIL

EH! VIM COBRAR IGUALDADE, QUERO LIBERDADE DE EXPRESSÃO
É A RUA PELA VIDA, É A VIDA DO IRMÃO
BAIXADA EM ATO DE REBELIÃO (EH, EH)


DESFILA O CHUMBO DA AUTOCRACIA
A DEMAGOGIA EM SETEMBRO A MARCHAR
AOS “RENEGADOS” BARRIGA VAZIA
PROGRESSO AGRACIA QUEM TEM PRA BANCAR
ORDEM É O MITO DO DESCASO
QUE DESCONHEÇO DESDE OS TEMPOS DE CABRAL
A LIDA, UM CANTO, O DIREITO
POR AQUI O PRECONCEITO TEM CONCEITO ESTRUTURAL
PELA MÁTRIA SOBERANA, EIS O POVO NO PODER
SÃO MARIAS E JOANAS, OS BRASIS
QUE EU QUERO TER

DEIXA NILÓPOLIS CANTAR!!!
PELA NOSSA INDEPENDÊNCIA, POR CULTURA POPULAR


Ô ABRAM ALAS AO CORDÃO DOS EXCLUÍDOS
QUE VÃO À LUTA E MATAM SEUS DRAGÕES
ALÉM DOS CARNAVAIS, O SAMBA É QUE ME FAZ
SUBVERSIVO BEIJA FLOR DAS MULTIDÕES



Copyright: Editora Musical Escola de Samba Ltda

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ENREDO

“Brava Gente! O grito dos excluídos
no Bicentenário da Independência”

Carnavalescos: Alexandre Louzada e André Rodrigues
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CONVOCAÇÃO

 

Por uma questão de desordem no que se diz respeito às memórias que este país constrói: VAMOS NOS UNIR, BRAVA GENTE!

Esta é uma convocação aos sobreviventes deste país que não nos reconhece. Um país que ignora nossas existências.Um país que comemora 200 anos da marginalização da sua própria gente. Seremos a voz do desejo de uma nação inteira: independência e vida!

O Estado brasileiro foi erguido sobre um conjunto de mitos e símbolos que justificam as violências que ainda hoje são implementadas contra nós. Não é por acaso o apagamento do verdadeiro protagonista da história nacional: o povo brasileiro. Esta é a brava gente que está ausente dos atos cívicos que celebram nossos mitos fundadores. Excluídos.

Se as pautas fundamentais para uma nação soberana, independente e justa são trabalho digno, moradia, alimentação, participação popular, igualdade de direitos e liberdade plena, a grande pergunta é: este é o Brasil em que vivemos?

Propomos, então, um novo marco para a Independência Nacional: O dia em que o povo venceu, o 2 de Julho. O triunfo popular de 1823 é muito mais sobre nós e sobre nossas disputas. O Dia da Independência que queremos é comemorado ao som dos batuques de caboclo, cantando que até o sol é brasileiro. Precisamos festejar os marcos populares em festas que tenham cheiro, cor e sabor de brasilidade, reconhecendo o protagonismo feminino e afro-ameríndio. Somos aqueles e aquelas que, excluídos dos espaços de poder, ousam ter esperança no amanhã. O Brasil precisa reconhecer os muitos Brasis e suas verdadeiras batalhas.

É a partir desta data que provocamos uma nova comemoração da independência do Brasil. A independência do povo para o povo. Faremos, então, um grande ato cívico em louvação aos 200 anos de luta dos brasileiros, herança dos heróis e heroínas que forjam dia a dia, através de suas batalhas, uma nação verdadeiramente livre e soberana.

Reivindicamos e nos orgulhamos das lutas históricas e sociais daqueles que nos precederam nesta incansável batalha pela cidadania.

Juntem-se e vistam suas fantasias, pois será um grande carnaval quando em praça pública declararmos nossa própria independência. NÓS, O POVO! Juntando tudo e todos. O novo Brasil ditará as ordens a partir da folia. Alegria e manifestação! Nossa bandeira será um grande mosaico do que somos de verdade, feita a partir do retalho do que cada um tem a oferecer daquilo que lhe representa.

A cultura é o nosso poder, e, é através dela que lutamos pela transformação social, colocando o povo no pedestal que lhe é de direito. Por isso fazemos carnaval, é a nossa missão, sempre construindo o país que acreditamos, e lutando para que ele seja um dia, realidade.

O grito será por justiça e liberdade, igualdade sem neurose e sem caô.

Nilópolis, 02/07/2023
Dia dos 199 anos da Independência do nosso Brasil

JUSTIFICATIVA

O G. R. E. S. Beija-Flor de Nilópolis irá apresentar no carnaval de 2023 o enredo “BRAVA GENTE! O GRITO DOS EXCLUÍDOS NO BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA”.

O bicentenário da Independência é um momento propício para um debate profundo acerca dos rumos e do próprio sentido do país. O carnaval carioca, alegria e manifestação, não poderia ficar de fora desta ampla discussão. A festa consolidou-se como um espaço privilegiado para reflexão e a disputa de questões de importância fundamental em um espetáculo artístico de inegável dimensão política e caráter pedagógico.

Através do seu desfile, um ato cívico, nós propomos que a independência é um processo, defendemos um novo marco para a emancipação política brasileira, destacando o protagonismo popular enquanto denunciamos o caráter autoritário, tutelar, excludente e desigual do Estado, desde sua gênese até a atualidade.

Ao invés de celebrar ritualisticamente o mito fundador da pátria – o grito do Ipiranga no 7 de setembro, argumentamos em favor de um novo marco, capaz de oferecer um sentido que consideramos mais próximo da verdade histórica de uma independência que foi conquistada; não proclamada. Este marco é o 2 de julho de 1823, data da vitória das tropas brasileiras na consagração instalada na Bahia.

Ao mesmo tempo, iremos rememorar esses duzentos anos a partir da perspectiva das camadas populares apontando as mazelas, contradições e limites da construção nacional. Heroico é o povo que constrói a sua própria autonomia através da luta. Esta é a nossa história: nada nos foi dado; cada um dos nossos avanços foi obtido pelos nossos próprios esforços.

Se o Estado brasileiro se ergueu como um instrumento para conservação de uma ordem patriarcal, escravocrata e latifundiária, o povo brasileiro, mesmo alijado dos espaços institucionais, insiste em disputar no Brasil sem temer nem a luta, nem a morte.Este enredo é um grito que ecoa do Brasil profundo e se faz ouvir aos quatro cantos. Das aldeias, guetos, terreiros e favelas um brado em uníssono se faz clamor: independência e vida!

Este é o nosso grito.

FALA MAIS

O dia em que o povo ganhou: vitória patriótica de dois de julho

No processo de elaboração da memória nacional, o dia 7 de setembro de 1822 foi forjado como o grande marco da nossa independência. O grito do Ipiranga seria o decisivo ato heroico do príncipe regente para a emancipação política do Brasil. A invenção do sete de setembro cumpriu o papel de mito fundador do Estado brasileiro. Este mito celebra uma ideia de independência pacífica, fruto do heroísmo do futuro imperador e de arranjos da elite. O que ele esconde é que houve guerra e muito sangue foi derramado neste processo.

As guerras da independência evidenciam a diversidade de ideias, concepções e projetos, os conflitos e tensões sociais e políticas constitutivos daquele cenário histórico. O esquecimento sobre estas guerras não é gratuito; muito pelo contrário, é o resultado de uma construção da história que considera a emancipação política do Brasil um “desquite amigável” em relação a Portugal.

Em províncias como Ceará, Cisplatina, Maranhão, Pará e Piauí houveram confrontos bélicos em episódios decisivos para que a causa nacional triunfasse. Porém foi na província da Bahia que se instalou a guerra que tomaremos como marco. Durante um ano e quatro meses, o destino da nação brasileira teve este território como palco privilegiado. O confronto na província foi central no processo de ruptura que garantiu a soberania nacional.

Até que em 2 de julho de 1823 até o sol foi brasileiro. O dia em que o povo ganhou. Esta data marca a vitória libertadora com a expulsão dos portugueses e, desde então, é celebrada com uma grande festa que tem cheiro, cor e sabor de brasilidade. Uma algazarra pública, que tem nas figuras do caboclo e da cabocla símbolos da liberdade. Esta festividade celebra e louva a ampla participação popular, sobretudo de indígenas e negros, na luta pela emancipação ante a tirania e o julgo colonial. O papel de destaque de muitas mulheres, como Joana Angélica, Maria Quitéria e Maria Filipa, verdadeiras heroínas da pátria, acentua o protagonismo feminino que se contrapõe a uma escrita da história centrada no paradigma da masculinidade.

É este marco que celebramos como data da nossa independência: a vitória patriótica do 2 de julho e o protagonismo popular, notadamente afro-ameríndio e feminino.

As fantasias republicanas e as batalhas pela cidadania

Provando que no Brasil as ideias estão sempre fora de lugar, a República já nasceu velha. Da espada, oligárquica, dos coronéis e barões, do café com leite, dos ideais eugenistas e com um lema que poderia estampar nossa bandeira: autoritarismo e desigualdade. Restringindo a cidadania a pouquíssimos, discriminando por raça, credo, gênero e orientação sexual.

Brutalmente violento, o Brasil é descrito por seus intérpretes/inventores como um país pacífico e harmônico, destinado à glória no porvir enquanto, no presente, seus filhos e filhas morrem de fome. Excluídos, à margem. O tal “país do futuro” foi eficaz em construir uma imagem de si que mascara sua verdadeira face.

A democracia, entre nós, sempre foi um terrível mal-entendido. E é curioso constatar que foi pretensamente com a intenção de defendê-la que corriqueiramente a golpearam.

Os grandes agentes civilizatórios deste país são os brasileiros e brasileiras que, em movimentos organizados, são os mais fiéis defensores da democracia. Se a intenção manifesta era conferir uma cidadania limitada, inconclusa e tutelar, nós não aceitamos e conquistamos mais espaços de participação através de diferentes táticas e estratégias.

Denunciando o genocídio da juventude negra, o feminicídio, a violência contra a população LGBTQIA+ e o racismo religioso, a brava gente brasileira segue ocupando as ruas afirmando sua existência, pleiteando reconhecimento e disputando o hoje. Nós não admitimos a tese absurda de um marco que limite no tempo a posse da terra de quem é seu único e verdadeiro dono.

Manifestamos nossos desejos e expressamos nossas necessidades em pautas, causas e questões incontornáveis como a reforma agrária, os direitos trabalhistas e a urgente promoção da igualdade racial.

Em um país majoritariamente negro e feminino, as mulheres negras são a base de sustentação material e, somente a partir delas, poderemos, efetivamente, se constituir em um país outro, uma mátria de muitos Brasis. Plural, diversa, inclusiva e igualitária.

 

Alegria e manifestação

O desfile da Beija-Flor de Nilópolis será um grande ato cívico pela construção de um Brasil livre, soberano e verdadeiramente independente. Este Brasil livre, soberano e independente ainda é um sonho, mas, por este sonho, a brava gente brasileira segue derramando sangue e suor em busca de dignidade e autonomia.

Nosso ato será festivo e multicolorido.

Nossa singularidade é produto da pluralidade das muitas nações brasileiras. Esta pluralidade manifesta compreensões e conhecimentos, formas de ser, sentir e pensar que alargam as possibilidades de existência. Os muitos anseios e desejos de um Brasil melhor se exprimem justamente na riqueza da nossa arte e cultura. São expressões de uma brasilidade que emana desta gente que, permanentemente em luta, também produz beleza e encantamento.

Cultuamos e preservamos nossa ancestralidade e os saberes tradicionais resistindo a toda sanha de domesticação dos corpos e aniquilação da diversidade de práticas, costumes e experiências.

Fazemos festa porque esta é, também, manifestação política e na festa carnavalesca gritamos que outros Brasis são possíveis.

Autores do Enredo: André Rodrigues e Mauro Cordeiro
Desenvolvimento: André Rodrigues, Mauro Cordeiro e Alexandre Louzada
Convocação: André Rodrigues, Beatriz Chaves, João Vitor Silveira e Jader Moraes.
Pesquisa e Justificativa: Mauro Cordeiro

FICHA TÉCNICA

Fundação: 25/12/1948
Cores: Azul e Branco
Presidente de Honra: Aniz Abrahão David

Presidente: Almir Reis

Carnavalescos: Alexandre Louzada e André Rodrigues

Mestres de Bateria: Rodney e Plínio
Rainha de Bateria: Lorena Raissa

Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Claudinho e Selminha Sorriso
Comissão de Frente: Jorge Teixeira e Saulo Finelon

Quadra: Rua Pracinha Wallace Paes Leme, 1025 - Nilópolis - RJ. Cep: 26.050-032
Barracão: Cidade do Samba (Barracão nº 11) - Rua Rivadávia Correa, nº 60 - Gamboa - CEP: 20.220-290

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